
“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Ainda que escrita no século passado, a frase do filósofo irlandês Edmund Burke permanece relevante. Uma sociedade que esquece, distorce e relativiza o passado fica exposta à possibilidade de repeti-lo. A ditadura é a ferida aberta do Brasil, um período de mais de vinte anos de repressão e violações de direitos humanos, que segue pouco examinada.
Diferente de outros países da América Latina, a falta de responsabilização e apagamento de informações após a ditadura no Brasil deixou lacunas profundas e a abertura para desinformação. Hoje, com a disseminação de discursos que tentam reescrever a realidade trágica da ditadura, o resgate do passado e preservação da memória torna-se cada vez mais necessário.
Anistia 79 (2026), de Anita Leandro, se encontra na encruzilhada de arquivos esquecidos e a necessidade latente de manter a memória viva. Documentarista, pesquisadora e professora de cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Anita desenvolve um trabalho dedicado à relação entre cinema, memória e arquivos históricos. Seu documentário Retratos de Identificação (2014), fruto de uma pesquisa sobre acervos fotográficos das agências de repressão da ditadura brasileira, também investiga as marcas da violência estatal a partir de registros históricos. Dando continuidade a esse trabalho, em Anistia 79, Anita recupera imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma, em 1979, evento que reuniu exilados brasileiros e ativistas de diversos países para lutar pela anistia e o fim da ditadura.
As gravações foram realizadas por dois exilados, Hamilton Lopes dos Santos e Velso Ribas, e ficaram esquecidas em um porão por quase meio século. O documentário resgata o material gravado em 79 e o compartilha com personagens que fizeram parte dessas filmagens, capturando suas reações. Ao aproximar passado e presente, o filme transforma o arquivo em um espaço de memória, no qual as imagens não apenas documentam um momento histórico, mas também revelam a permanência de questões que ainda atravessam a sociedade brasileira.

Em 1979, enquanto exilados, militantes, feministas, juristas e defensores dos direitos humanos se mobilizavam internacionalmente pelo fim da repressão, a ditadura brasileira articulava os termos de uma abertura que buscava controlar. A Lei da Anistia, sancionada em 28 de agosto daquele ano, permitiu o retorno de exilados e a libertação de presos políticos, representando uma conquista importante da resistência. Entretanto, a anistia geral e irrestrita também possibilitou que agentes da repressão responsáveis por prisões ilegais, tortura, assassinatos e desaparecimento de pessoas fossem perdoados. A palavra “anistia” passou então a carregar dois sentidos em disputa: conquista social de reencontro e liberdade, e auto anistia de quem torturou, matou e fez desaparecer pessoas.
O encontro do filme em preto e branco de 16mm com resolução da câmera digital, evidencia o diálogo entre diferentes temporalidades que acontece na repetição de gestos, expressões e preocupações. Um passado de luta pela democracia e pelo direito de voltar para casa em liberdade, e o presente de uma sociedade amnésica que arrisca deixar as memórias da ditadura esquecidas em um porão, vulnerável a repetir os erros do passado.
Nesse sentido, a anistia representou uma conquista dos movimentos de resistência, mas também integrou uma transição política que não promoveu a culpabilização dos responsáveis pela violência estatal. A ideia de reconciliação nacional acabou associada, em parte, ao silenciamento de conflitos e à dificuldade de estabelecer justiça para as vítimas da ditadura.
Anistia 79 permite encarar as cicatrizes abertas do Brasil. A memória dos participantes revela uma luta por liberdades democráticas. Entretanto, o fim formal da ditadura não significou o desaparecimento imediato de suas estruturas autoritárias nem a resolução das violações cometidas. Em países marcados por regimes autoritários, a destruição das heranças de sistemas de opressão só acontece com a preservação da memória histórica e a responsabilização dos agentes de repressão.
Por esse motivo, filmes como Anistia 79 são fundamentais para manter viva a memória daqueles que lutaram pela democracia e ampliar o debate sobre os sentidos da anistia, liberdade e democracia no Brasil. Convidamos todes à sessão do documentário, seguida da mesa “Como as ditaduras morrem: autoritarismo, democracia e os sentidos da Anistia”, com as convidadas Luciana Lombardo (Arquivo Nacional e UFRJ), Dulce Pandolfi (ex-CPDOC/FGV e Ibase) e Jean-Marc von der Weid (entrevistado do documentário, atuante como coordenador do Comitê Europeu pela Anistia até retornar ao Brasil após a Lei da Anistia de 1979). O encontro acontece no dia 4 de novembro às 14h, na Cinemateca do MAM, com entrada franca. Esperamos vocês!
Texto: Sofia Pitanguy Romani de Almeida – Extensionista do projeto Pedagogias da Imagem
















